segunda-feira, 11 de março de 2013

Por que nos tornamos monstros quando estamos na direção de um carro?


Ouvi esta pergunta em vários noticiários de hoje, quando se comentava mais um acidente de transito que vitimou um ciclista. Em minhas andanças pelas estradas brasileiras e nas cidades em que costumo dirigir, já me fiz essa pergunta várias vezes, quando fui brutalmente agredida no transito por motoristas impacientes, inconsequentes, irresponsáveis... A violência não se caracteriza só pelo acidente em si, mas pela forma como se trata o motorista ao redor: xingamentos, pressão para ultrapassar, farol alto para dizer sai da frente que minha camionete vai passar por cima de você, buzinaço para advertir que sou maior, mais possante ou mais brutal! Isso assusta, intimida e com o tempo também embrutece... Vejo pessoas delicadas em uma conversa comum, repetindo essas agressões, o corpo apresenta um tono diferente, uma aspereza nas palavras, umas rugas grosseiras no rosto, um escurecimento da aura. Às vezes me vejo embrutecida com a irresponsabilidade do outro: parar em mão dupla ou no meio da rua para bater papo, “passear” lerdamente enquanto o resto do mundo tem pressa... Eu tenho pressa, eu tenho horário, eu preciso chegar!
Êpa! De onde veio nesse momento essa minha irritação? Respirando...
Vamos parar um pouco inclusive eu, que não sou santa, e chegada à velocidade, sempre com “muita segurança”... Vamos pensar no que nos faz monstros em várias situações, já que os padrões de comportamento humano geralmente se repetem, não há regras, mas há recorrência.
Pensemos no ser humano nas situações de poder, pois acredito que estar no poder é muito responsável pela sensação de onipotência desenvolvida instantânea e também efemeramente em nós, seres humanos. Já dizia Abraham Lincoln: "Quase todos podemos suportar a adversidade, mas se quereis provar o caráter de um homem, dai-lhe poder." Pensemos superficialmente em casos atualmente na mídia: O que levou o goleiro Bruno a deixar que Elisa morresse? O que leva a maioria dos políticos a praticar seus atos de corrupção? O que leva os donos de estabelecimentos públicos a não seguirem as Normas Técnicas para edificações e colocarem a nossa vida em risco? Penso que é a sensação de poder nutrida por todos. O poder nos faz sentir acima dos demais seres humanos, inatingíveis, intocáveis, inalcançáveis pelas mazelas, pela justiça, pela doença...
Mais uma vez e como professora, penso na educação, temos que pensar a educação das pessoas e também educar para a possibilidade de ter... Alguns de nós já se preocupa em educar o ser...agora educar o ser consiste em educar a possibilidade de ter, já que vivemos num país onde um operário chegou á Presidência da República e centenas de garotos esperam uma chance para virar milionário no futebol... Alguns ficarão ricos, alguns chegarão ao poder... Outros já nascem ricos nesse país nem por isso o poder lhes deixa de fazer a cabeça... Conseguimos o direito de dizer o que queremos, de fazer o que achamos conveniente, quando aprenderemos a lidar com o poder?
Não tenho a pretensão de dar respostas e quem sou eu para dar as respostas?... Apenas aprendamos a controlar o nosso poder, acendamos a nossa luz amarela interior quando o nosso “poder” estiver tão grande, tão forte, tão descontrolado a ponto de nos transformar naquilo que não queremos ser: monstros, destruidores de nossa própria raça! Você já mediu seu poder hoje? Não adianta dizer-se sem poder, abaixo de alguém, sempre tem alguém se sentindo nada, inferior, é dai que vem a força do poder... Encontremos o equilíbrio! Rezo por todos e por mim... Que nossa bicicleta não seja a arma contra o pedestre. Que nossa moto não seja a arma contra o ciclista, o skatista e o pedestre. Que nosso automóvel não seja a arma a tirar a vida de todos os outros condutores que parecem menos poderosos que nós. E que ninguém se sinta mais poderoso que nós a ponto de se achar no direito de tirar nossa vida!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Eu, o mundo, a verdade, o bem e o mal. Enfim, noite de insônia e elucubrações!


Poucas vezes tive insônia na vida, durmo bem sempre... Ontem foi um desses dias inéditos, questionadores da existência humana na Terra. Pensei que o tempo e a idade teriam acalmado meu coração, mas as revoluções silenciosas de minha alma, se fazem a cada dia mais presentes, bastando apenas um pequeno motivo para virem à tona e remexer minha suposta paz. Senti-me qual Hamlet de William Shakespeare. O crânio humano não estava em minhas mãos, mas pude contemplar alguns crânios em todas as edições jornalísticas do dia, os de D. Pedro e suas esposas. E, por costume e necessidade, tenho espelhos em casa para contemplar meus próprios olhos nas horas duvidosas. “Ser ou não ser, eis a questão.” 
No emaranhado das horas que não passavam, andei recordando umas aulas de filosofia que tive no Ensino Médio, quando um professor que posteriormente foi também meu professor no Ensino Superior nos chegou com uma pergunta que a princípio não provocou a reflexão que hoje faço: O homem é bom ou ruim? Interessante que o próprio professor após muito insistir em nossas respostas sem sucesso, pois naquela época tínhamos medo de dar a “resposta que o professor não queria ouvir”, ou seja, tínhamos medo de errar, nos fez acreditar que “o homem nasce bom e o mundo o corrompe”. Recordei Heidegger em Introdução à Metafísica: “A filosofia nunca torna as coisas mais fáceis senão apenas mais graves”. A filosofia nos obriga a pensar e o exercício de pensar por si mesmo é a arte das artes, exige antes de tudo sensibilidade, treino intelectual e também disciplina corporal, pensar requer postura. Existem pessoas que afirmam que pensar dói. Será? Só o ato de pensar nos permite vislumbrar o mundo tal qual ele é, confrontar a realidade intima e profunda. A partir daí nos atirarmos aos projetos relacionados à nossa existência no mundo. 
Penso dolorosamente na definição que damos a mundo. Não seria o mundo a união ou a desunião dos homens? Esse tal mundo não são os homens que fazem? Então quem corrompe o homem senão ele mesmo? Evoco Marx “As abelhas constroem colmeias tão perfeitas que poderiam envergonhar a mais de um mestre-de-obras. Mas o pior mestre-de-obras é superior à melhor abelha porque, antes de executar a construção, ele a projeta em seu cérebro”. Ou seja, nós premeditamos, o mais santo de nós premedita. Podemos até fingir nossa natureza por um tempo, mas não a vida toda. O tempo faz com que nos revelemos e nos dá oportunidades e motivos de mostrarmos quem realmente somos: Bons por vezes, ruins se necessário. Ser bom ou ruim depende da verdade no momento buscada. Sim, por que a verdade nos “liberta”, nos valida e nos justifica. Muitas vezes quando alguém se dirige a mim buscando que eu diga a “verdade” tenho um leve impulso de perguntar qual a verdade se quer saber: A minha ou a de quem pergunta? Sei que a verdade por vezes é efêmera e conveniente. Criamos nossas verdades para satisfazer as nossas consciências, para dormirmos tranquilos, termos a sensação de paz interior... 
Decretar a bondade ou a maldade das pessoas consiste em conhecê-las. Conhecer leva tempo, implica um trabalho árduo de avaliações, pesagens, medidas, audição, enxergagem*... Tem gente com quem se convive a vida inteira e não se conhece de verdade. Conviver só carece conveniência, não implica conhecimento. Em relação a mim, acredito que uma meia dúzia de pessoas me conhece, a maioria convive comigo e tem uma vaga ideia de quem sou. Muitas, muitas pessoas mesmo, criaram uma imagem alegórica e conveniente do que sou, pois seria trabalhoso me conhecer. Reconhecer-me ia requerer a quebra de alguns paradigmas antigos, poderia até causar revelações a quem o quisesse fazer, queda de máscaras e queda de verdades. Seria laborioso, careceria de tempo... Melhor continuarem achando que me conhecem, para o conforto de muitos, alguns bem próximos... Recomendo então: Vivam a fantasia, só não confundam viver com existir, ser bom com ser negligente, e ser mal com ser realista e fiel às suas verdades... Por fim, resolvi deixar de ser boa ou ruim: Resolvi ser eu mesma, apenas humana! 
Não se surpreendam se eu lhes machucar de vez em quando. Contudo, creio na bondade extrema e também na crueldade extrema. Creio nos santos e nos psicopatas, mas tentar revela-los fica para outra noite de insônia...


Enxergagem: definição minha para o ato de ver além das aparências.

Ao meu pai, Seu Beijinha, falecido em 01/02/03.

Dez anos passados e parece que foi ontem que o senhor partiu e me deixou inteira, repleta de seus ensinamentos... Na época eu não entendia, questionei os médicos, Deus e a vida, levei muito tempo para compreender o meu legado de filha de homem forte, sensato, justo e honesto, que se transformou com os filhos, se modificou sem perder a essência para dar conta da educação moderna, aberta às informações, uso das tecnologias, incentivadora da iniciativa e do protagonismo. Capaz de amar numa intensidade que basta... 

Pois sim meu pai, hoje eu te agradeço. Agradeço por teres me amado tanto, numa intensidade suficiente para que se ninguém mais nessa vida viesse a me amar, eu já teria sido amada o suficiente. Obrigada por teres confiado tanto em mim, que hoje, não faz diferença alguma se mais alguém confia ou não... Obrigada por aplaudires e incentivares minhas palavras desde pequena e me ensinares a não ter medo de gente. Obrigada por me dizeres as palavras que busco em meu coração toda vez que preciso ouvir algo importante, que requer justiça, humanidade e sensatez. Obrigada por seus defeitos, todos declarados. Quão triste deve ser a vida dos filhos de pais perfeitos... Com medo de errar e assumir, refazer caminhos, pensamentos, conceitos... Obrigada por me permitir ser eu, não ter a obrigação de ser igual ao senhor, apenas decente, consciente de que posso ser melhor a cada dia e não preciso ser igual aos espécimes da “safra de otários” que o mundo produz todo dia! Pensei tanto no senhor nessas férias... Uma das noites que passei na estrada, dormimos numa pousada num posto de combustíveis. Vi vários caminhões parados com famílias viajando juntas, como nós. Lembrei-me de meu cantinho de dormir na “gabina” do caminhão, e de sua paciência na estrada reduzindo a velocidade para que eu pudesse ler as placas, minhas primeiras leituras. A estrada sempre me fez lembrar o senhor, deve ser por isso que amo tanto viajar. Filha de “chofer de caminhão” não teme a estrada, não teme viver, não teme as consequências que viver implica. Obrigada por me declarar motorista. Minha carteira de habilitação tem mais de 20 anos, mas ela só valeu de verdade quando em nossa última viagem, uns dez dias antes de o senhor nos deixar, me permitiste conduzir nosso carro na estrada e tomaste o lugar do passageiro. O senhor me ensinou e me fez crer em mim, até nos últimos dias de sua vida. Obrigada meu pai, por coisas que por mais que eu viva não conseguirei enumerar. Deus te guarde em bom lugar. Em meu coração o senhor está mais vivo que nunca, só lamento o senhor não ter conhecido meus amores novos, minha família que aconteceu depois de sua partida, meu novo, e já há sete anos, companheiro de viagem...
 

Sobre o "Cara" da música do Roberto...


Ainda não tinha me manifestado sobre o Cara, da música do Roberto. Detesto o imediatismo... Já vi postagens de caveirinhas femininas esperando o tal Cara, análise da personalidade do Cara, notícias de que o Cara está sendo cantado em ritmo de forró, arrocha, esfrega, estica e puxa...
Particularmente ainda não ouvi o Cara, mas é impossível não ver a letra. Eu não sou fã do Roberto, mas tenho em relação a ele uma memória afetiva muito doce e positiva. Ele é ídolo de pessoas que amo, de uma geração que não é a minha, mas é muito responsável também, por quem eu sou. Mesmo não sendo fã do estilo, tem uma coisa nele que admiro muito, que é a coragem de afirmar que o amor existe e que pode ser vivido, inclusive e ainda, à moda tradicional, antiga, arcaica, brega, démodé, careta... Com namoro, flerte, igreja, flores, casamento... Eu, particularmente amo tudo isso, fico excitada só de pensar em bolo de noiva! Se tivesse ainda que escolher, a essa altura da minha idade e humanidade, casaria de novo na igreja, com o Frei Petrônio de Miranda, meu vestido branco, Marcha Nupcial no início e Aleluia no final! Faria tudo novamente por que valeu a pena cada dia e hoje isso é afirmado com mais convicção que ha quase sete anos.
Depois de tanta polêmica, críticas e piadas a respeito do Cara da música, como é do meu feitio, resolvi me manifestar. Fiquei perplexa com a unanimidade das opiniões, acho que faltaram as opiniões contrárias às veiculadas sobre o Cara que se diz o Roberto, para mim totalmente real, existente. Conheço caras ainda mais maravilhosos do que o Roberto descreve, mas onde estão eles e suas amadas? Por que não se manifestar? Será que ser feliz está fora de moda? Será que duvidariam da existência e faria igual a raposa com as uvas? Continuo acreditando que quem desdenha quer comprar...
Sobre tudo o que Roberto fala na música em voga, a única coisa que o Cara com quem me casei não faz é abrir a porta do carro, se eu não estiver com as mãos ocupadas. O interessante é que isso não faz falta, pois ele abre para mim portas bem mais importantes, portas que me permitem adentrar meu coração e ser um ser humano melhor, perto dele, sob a influencia de sua bondade, compaixão e companheirismo. Já dizia não sei quem: “Eu não o amo por causa de quem você é, mas por causa de quem eu me torno quando estou com você.” E eu sinto falta dele se sim. Se eu sinto ele também sente...
Todos nós temos nossas frustrações e eu também tenho a minha: jamais nessa vida, vou saber o que é gerar um filho, parir, amamentar, sentir a fragilidade em meus braços, o cheiro de um bebê parecido conosco, nem por isso vou entrar para o clube dos que optaram por não ter filhos e esconder a minha incapacidade em opções que não fiz. Ou, por outra, maldizer quem pode gerar e decidiu viver a dois. Minha condição me faz sofrer? Sim, mas não posso mudar essa história, posso sim ajudar a construir outras histórias e isso eu estou fazendo. Se não há felicidade completa, a infelicidade causada por motivo único, não pode sabotar todas as minhas possibilidades de ser feliz.
Então, só por que alguns amores não deram certo, algumas histórias de amor tornaram-se fardos ou em alguns relacionamentos os amantes se tornaram estranhos e inimigos íntimos, eu não posso deixar de acreditar que todas as histórias de amor terão o mesmo final triste, deixar de acreditar que a felicidade a dois existe e começar a achar defeitos no meu casamento e no meu Cara. Isso é loucura! Não posso banalizar o encontro de duas almas com os estereótipos da infidelidade, da cafajestice masculina ou da autossuficiência feminina... Toda verdade tem vários lados!
Para finalizar, e goste quem gostar, acredito que moderno é ser feliz, pois há embaixo desse céu nem sempre azul, espaço para todos os tipos de relacionamentos. Até os felizes!!!
E “Se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor nos salve a vida.” Já dizia Neruda...
Parabéns aos caras que conheço e que felizmente são muitos... Manifestem-se, não tenham vergonha de ser o que são...
As que ainda não acharam seu Cara, tenham fé, ou aprendam a ser felizes consigo...

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Sobre a nova "Safra de Otários", o plástico e as sacolas retornáveis...

Recordo-me que quando eu era criança as compras de supermercado vinham embrulhadas em sacos de papel. Na padaria enrolava-se o pão num pedaço comprido de papel grosso avermelhado ou esverdeado que o dono da padaria comprava inteiro, cortava as tiras e pendurava num prego. Em casa, ao papel eram dadas várias utilidades... Algumas pessoas levavam os sacos de tecido alvejado, provenientes de sacos de açúcar, costurado, bordado, feito crochê e que alguns casais já levavam no enxoval.
Agora, mais uma vez, estamos diante de um golpe contra a sociedade, proíbe-se o uso de sacolas plásticas e nós temos que adquirir uma sacola retornável. Não entendo essa história de que a gente tem que pagar pela “sacola retornável”...  Mais uma vez a responsabilidade das mazelas é nossa, coitados do governo e dos empresários, tão impotentes diante de nós, gente selvagem... O problema da educação é dos professores e da saúde é dos médicos... Transferência de responsabilidade sempre... O problema do plástico é a falta de educação no uso, tem gente que vai à Cesta do Povo, e isso eu já vi isso acontecer, leva as comprar e um fardo de sacolas, não entendo bem para que, mas deve ser para acondicionar lixo, colocar nos vasos de papel higiênico, não vejo outra utilidade... Não sabem essas pessoas que tais sacolas são inadequadas para essa finalidade. Pura falta de informação, falta de educação e a educação não é responsabilidade só da escola. Tudo depende do consumo consciente e o consumo também é educável.
Os supermercados que fabriquem sacos de papel, eu não quero pagar mais essa conta. Já tenho meio aió que levo para feira, acho que o levarei para o supermercado também, se eu tiver que pagar mais alguma coisa. Os aiós ou bocapíos sãos super duráveis, essas sacolinhas vagabundas descoram, e logo, logo temos que comprar mais, ninguém quer andar amarrotado. Essas sacolas retornáveis tão virando é moda, todo mundo quer mostrar que tem uma, que é antenado e moderno, que não contribui com a destruição da camada de ozônio, que preserva a natureza... Como dizia meu falecido e sábio pai, “A safra de otários não acaba nunca”, não sejamos otários!!!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Sobre ausência, memória, meu pai, os gays e Lampião... É muita coisa!!!

Entre outros incômodos noturnos, tem me atormentado um comentário veiculado no Facebook. Ando sem tempo para escritos, mas não posso deixar de me manifestar, pois não me manifestar me tira ainda mais o sono.
Dizia meu sábio e falecido pai que as ausências são sempre atrevidas, não assim tão bem portuguêsmente explicado, mas a essência era advertir para o fato de que é fácil falar de quem não está presente e não pode se defender.
O comentário era sobre o lançamento de um livro que contesta a masculinidade de Lampião, o “Rei do Cangaço”. Fiquei imaginado o quando ainda mais será necessário afirmar em relação a aceitação das diferenças humanas para que as pessoas se conscientizem de seu valor e deixem de tentar se afirmar revirando antigos baús em busca de provar que existem ilustres e famosos “jogando no mesmo time”. Lembrei-me de mim quando ainda obesa mórbida, pesando 106 quilos, pesquisava a todo custo as gordinhas que se diziam “gordas porém felizes”. Era uma luta incessante em busca da minha própria auto-afirmação. A sociedade cobra modelos esqueléticas e eu nem depois, da gastroplastia consegui ser magra... Continuo frustrada? Não. Apenas me aceito gorda, como tantos são negros, outros tantos são anãos, outros são de “duas rodas”, outros são judeus, palmeirenses... Podemos ser o que quisermos, o que a nossa natureza humana nos permite desde que isso seja bom para nós. Apenas deixemos de pensar que só podemos ser felizes de nos identificarmos com os famosos, assim estaremos reproduzindo a ditadura de que só é bom o que é lindo, famoso ou rico.
Tenho muitos amigos gays valorosos, honestos, revolucionários e tudo que todo ser humano de bem é, como todos a quem chamo de amigos. Gosto das pessoas que são e não do estereótipo do “eu sou assim mas sou”... Isso me irrita. Parece aquele chavão ridículo da televisão “sou pobre mas sou limpinha!”
Fiquei pensando no meu pai, como ele ficaria decepcionado com essa afirmação sobre Lampião e penso que o tempo do meu pai passou e sua memória ficou. Hoje todos os valores por ele ensinados se transformaram em generosidade para compreender e aceitar o outro me preparando para o fato de que somos todos vulneráveis à impermanência da vida e de seus cursos.
No tempo de hoje, que não é mais o do meu pai, os deficientes não são mais coitados, freqüentam escolas regulares, as pessoas do mesmo sexo casam, a AIDS tem cura, as mulheres dominam o cenário das grandes lideranças mundiais, existem ipads, tabletes e um Facebook que eu não domino e que os meus sobrinhos brincam intimamente. Eu poderia enumerar mil coisas diferentes, mas estou com sono...
Deixemos Lampião, Zumbi, Alexandre, Jesus Cristo onde sempre estiveram e vivamos, nos façamos amar independente das nossas opções.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

A Sociedade Inclusiva deve garantir o direito de fazer escolhas...


Em 1999 conclui meu curso de Especialização em Educação Especial pela Universidade Estadual de Santa Cruz. Meu curso teve ênfase na educação chamada inclusiva, tive professores e professoras maravilhosos que me fizeram sonhar com uma “sociedade mais justa e igualitária”... Ouvi essa frase se repetir exaustivamente ao longo desses mais de doze anos de estudos, pesquisas, contestações!... Sempre pensei na inclusão dos meus alunos da APAE, dos filhos de meus amigos e dos alunos dos professores que me chegavam aflitos em busca de receitas de inclusão, com seus olhos questionadores, ávidos de uma solução imediata para casos diversos, em lugares diversos e realidades não menos diversas.

Após longos discursos persuasivos, na maioria das vezes eu conseguia convencer minhas platéias de que se houvesse esforço incessante, amor, vontade, união, estudo e planejamento, seria possível realizar o sonho da inclusão escolar de qualquer que fosse o aluno, com qualquer que fosse sua diferença: a deficiência intelectual, física ou sensorial. Preguei, por exemplo, que se o mesmo status que é dado ao aprendizado do inglês, fosse dado ao aprendizado da LIBRAS, os limites que há entre ouvintes e surdos seriam dirimidos mais facilmente, que as escolas precisam ensinar o respeito mútuo da diferença, questionar valores humanos, ética e moral, minimizando a criação dos “refugos humanos” descritos por Bauman (2001), em seu livro Modernidade Líquida. Compartilhei a dor e as frustrações dos professores que me ouviam, seus sentimentos de impotência diante de sistemas educativos e administrativos que não lhes permitia ousar arriscar, para debater com base em reais experiências. Apesar disso, sei que estimulei e contribui para muitas experiências bem sucedidas em prol da educação inclusiva.

Nesses anos de “militância” pela causa, um pecado que nunca cometi foi desvalorizar uma Escola Especial, principalmente por que trabalho em uma escola especial e sei o que esta escola representa dentro da comunidade em que nasci e até hoje resido. Sei que em muitas realidades a Escola Especial é a única alternativa de atendimento digno existente. Não sou teórica da Educação, eu vivo a educação e sei que no universo educativo são muitas as críticas feitas às instituições como APAE, APADA, INES, INSTITUTO DE CEGOS e outras especializadas. Chamam-nas de segregadoras, anti-escolas, não-escolas, depósitos e toda sorte de adjetivos que alimentam a falsa idéia de modernidade pedagógica vendida por consultores muito bem pagos pelo nosso sistema educacional, seguindo os modismos da vez, a exemplo do famoso Construtivismo...

Relembrando um pouco da história da humanidade, pensemos o que existia para as pessoas atípicas antes de ser fundada a primeira escola especial... Não existia quase nada a não ser piedade e a promessa de portas abertas no céu para quem se dispusesse a cuidar desses “mal amados pela sorte”! As escolas especiais tiraram da invisibilidade as pessoas com deficiências e lutaram pela garantia de seus direitos básicos. Progrediram em sua forma de atender o aluno e a família, no mesmo ritmo ou mais aceleradamente que as demais escolas, pois lá se reconhece a sutileza do aprender e a fragilidade de quem concebe e pare um filho deficiente. Pensa-se no filho, mas também na família que ele tem e na importância dessa família para seu desenvolvimento efetivo. Uma escola especial não significa necessariamente uma escola segregadora, assim como uma escola regular não está isenta de práticas excludentes.

Não desqualifico as escolas normais, já trabalhei em muito boas escolas e conheço dezenas de ótimos professores comprometidos com seus fazeres, comprometidos com a formação intelectual e também humana de seus alunos. O que não concordo é com injustiças, falsas bandeiras, que só servem para enriquecer alguns mestres e doutores na arte do convencimento vazio, isento da experiência, mas que agradam os mentores das atuais políticas públicas que economizam nos investimentos na educação, mas não se despojam de seus gordos salários. A fórmula de inclusão vendida à custa da depreciação das Escolas Especiais tem que ser vista de um ponto de vista mais crítico por todos os educadores. As demandas sociais têm que se sobrepor às leis e, o ato de incluir deve respeitar o direito de escolha das famílias.

Podemos escolher se queremos ser católicos, protestantes ou espíritas, se optamos pelo partido A, B, ou C. Num mesmo dia podemos mudar de opinião várias vezes, então porque não podemos também escolher o tipo de escola que queremos para os nossos filhos?

Há pouco me tornei mãe, mãe de uma criança com necessidades especiais. Ironia do destino? Escolha. Começo a sentir a necessidade de ter esse direito. Apesar de tudo que sei sobre inclusão e de todas as orientações que fiz a esse respeito, decidi que meu filho vai permanecer na Escola Especial em virtude de que todas as tentativas que fiz de dar-lhe uma educação na escola Regular foram mal sucedidas. Conheço pais satisfeitos com suas tentativas, ou mesmo alguns que se enganam e fingem esta satisfação com medo de parecerem retrógrados, desumanos ou maus pais. Eu, porém, não estou satisfeita. Acredito que não basta que a escola diga que meu filho é bem vindo e aceito lá. Não bastam sorrisos amarelos, fingindo modernidade, humanidade e “responsabilidade social”. A escola tem que se mobilizar para a educação desse aluno. Uma criança precisa que se esforcem para o seu aprendizado, precisa que ao pensar em sua existência, se planeje para ele, precisa ter suas capacidades colocadas à frente de suas limitações. Precisa que a escola e seus professores o reconheça como criança, diferente como todas as crianças o são e, que não sejam negligenciadas suas necessidades, sob pena de à luz da negligência forjarem-se mentes deturpadas e agressivas pelo bullying e outros males modernos que a escola ainda não sabe lidar.

O professor contemporâneo já não pode mais se satisfazer em ensinar para alguns poucos privilegiados. Segundo Batista “aprender é uma ação humana criativa, individual heterogênea e regulada pelo sujeito da aprendizagem, independentemente de sua condição intelectual ser mais ou ser menos privilegiada” (BATISTA, 2006). Cabe a escola compreender a deficiência enquanto característica de grupos, que embora diferentes não são inferiores. Que as idéias desses grupos, suas opiniões, níveis diferenciados de compreensão da realidade são as pistas que precisamos para entender e valorizar a diversidade em sala de aula seja esta sala de aula Regular ou Especial, pois a própria LDB permite essa possibilidade em seu artigo 58.

Encarar a deficiência como condição e não um estado é um processo civilizatório desencadeado a mais de duas décadas pelo advento da Inclusão e que carece ainda ser amplamente desvendado nas discussões de cada grupo humano. O imaginário social da deficiência, principalmente a intelectual precisa ser reconstruído a partir das reflexões desencadeadas na escola, pelos educadores e todos os que permeiam o universo do ambiente escola, antes de nos lançarmos em experiências desastrosas e traumáticas, nas quais os que mais sofrem são os que mais precisam ser acolhidos.

O futuro já não é o que era, diz um graffitto numa rua de Buenos Aires. O fu­turo prometido pela modernidade não tem, de fato, futuro. (...) perante isso só há uma saída: reinventar o futuro, abrir um novo horizonte de possibilidades, cartografado por alternativas radicais às que deixaram de o ser. Com isso as­sume-se que estamos a entrar numa fase de crise paradigmática e, portanto, de transição entre paradigmas epistemológicos, sociais, políticos e culturais. (BOAVENTURA SANTOS, 1997)

Deixemos a vida fluir naturalmente, a seleção do que é essencial sempre foi e sempre será natural. Não precisamos da agressividade de determinados discursos. Não precisamos da rigidez da ditadura da moda pedagógica da vez. Precisamos ter direito às nossas escolhas. Precisamos poder errar e acertar e, por fim, precisamos respeitar a vida como ela se manifesta e preservar nosso sagrado direito de escolher.